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Page history last edited by Marta Capistrano 3 years ago

 

 A você que ora me visita, saiba que este wiki está sendo criado para registrar as aprendizagens no PEAD- Pedagogia a Distância, na intersiciplina  NECESSIDADES ESPECIAIS NA EDUCAÇÃO,onde construiremos um dossiê a respeito do assunto.

 

 

OBSERVE O SIDE BAR! ELE PONTUA OUTROS ASPECTOS A CERCA DESTE DOSSIÊ, EM CONSTRUÇÃO.


 

 

MINHAS VIVÊNCIAS A RESPEITO DE INCLUSÃO 

 

 

 

Nestes 26 anos de efetivo exercício no magistério público atuei e atuo nas redes municipal e estadual e, inúmeras vezes, mesmo sem a predisposição da lei em vigor, vivenciei situações de inclusão social com portadores de necessidades especiais. Não sei datar ou quantificar tais acontecimentos pois o meu foco sempre foi privilegiar o atendimento a estes alunos acolhendo-os num ambiente favorável ao seu desenvolvimento, suavizando sua dificuldade “seja ela qual fosse”.

Caso 1-

Lembro de um menino cadeirante que sofrera com a paralisia infantil o atrofiamento das perninhas. A princípio ele era trazido no colo, pela mãe, até a sala de aula onde eu deveria movimentá-lo da mesma forma. Porém como ele estava em crescimento e, com 09 anos já pesava mais de 30 quilos, a própria escola mobilizou-se em campanha no sentido de viabilizar a doação de uma cadeira de rodas para não limitá-lo ainda mais de exercer sua participação escolar. Além das limitações físicas, o menino também apresentava dificuldades de aprendizagem, pois também havia o bloqueio emocional social e de si mesmo a ser vencido.

Viabilizado seu transporte diário e locomoção restava, então trabalhar a acolhida e o convívio com os colegas, que sempre foram muito generosos com seu coleguinha, empurrando sua cadeira e incluindo-o nas brincadeiras. Sua defasagem na aprendizagem também se devia à sua infrequência escolar devido as dificuldades da mãe em transportá-lo até a escola em dias frios e chuvosos, pois sua saúde era frágil e, fazendo o uso contínuo de fraldas precisava ser trocado regularmente. Vencida sua resistência ao convívio social foi necessário persistência e determinação para que este começasse a interagir com os colegas e começar a fazer suas descobertas e aprendizagens. Ele aprimorou a decodificação silábica dos sinais gráficos para leitura e interpretação de palavras, frases e textos, quantificou, leu e escreveu numerais, operou adição, subtração e multiplicação, assim como resolveu histórias matemáticas orais e escritas e conseguiu avançar da segunda para a terceira série, neste ano. Já sorria e até gargalhava com as situações que surgiam, fazia comentários e se tornou ativo no processo de aprendizagem, fazendo intervenções pertinentes aceitas pelo grupo. Penso que ele deva ter, atualmente, por volta de 25 anos, talvez mais. Nunca mais o encontrei, mas tentei tudo o que sabia para incluí-lo, pois não havia apoio pedagógico algum, nem de pesquisa como há hoje, via internet.

Caso 2-

Interessante referendar também que, nem sempre a maior dificuldade é aquela de natureza física que impossibilita a criança ou adolescente de praticar alguma ação e desenvolver-se naturalmente. Vivenciei isto na mesma turma com uma adolescente de 15 anos, sem nenhuma dificuldade motora, mas com idade mental de 08 anos, que não avançava nos estudos apesar de sua idade, tamanho e deslocamento social, apresentando muita dificuldade na construção da escrita, leitura, quantificação e construção numérica, assim como as operações básicas de adição, subtração e multiplicação ou resolução de histórias matemáticas. Sem laudo médico ou alguma pista da origem de suas dificuldades apostei em sua auto-estima fazendo-a vencedora a cada pequena conquista na aprendizagem até que ela construísse pré-requisitos para avançar, mesmo que lentamente, até a série posterior, que seria a terceira. Sua defasagem também se devia a bloqueios emocionais pois ficava muito nervosa a ponto de ter brancos em seu raciocínio: durante as aulas ela tentava e, com incentivo, conseguia buscar realizar atividades propostas. Porém quando percebia que, de alguma forma seria avaliada, bloqueava e nada conseguia produzir. Apresentava risos nervosos e elevava sua voz frente aos desafios, manifestando pânico. A família assumia a postura de retardo mental, em relação a ela, e não buscava recursos ou investigação psicológicos ou neurológicos. Foi outro desafio e tanto que me fez enxergar que a inclusão não se dá apenas com portadores de necessidades físicas especiais: há também o aluno com necessidades, processos e tempos diferenciados de aprendizagem.

Caso 3-

Mais recentemente, por volta de 10 anos atrás, recebi irmãos gêmeos que apresentavam sintomas de hiperatividade e deficit de atenção. Após terem passado por todas as turmas da escola, em sua série, apresentando dificuldades de relacionamento entre colegas, professora e baixa aprendizagem, a família, apesar de ser esclarecida, ter um bom nível econômico com possibilidades de investigar clinica e psicologicamente a problemática dos filhos, recusava-se a fazê-lo alegando inabilidade ou falta de preparo dos professores, da direção, enfim, da escola. Em entrevista com os pais estes consideravam as atitudes, inclusive violentas, dos gêmeos naturais, características de crianças ativas da idade. No entanto, quanto a baixa aprendizagem argumentavam quanto a superlotação das salas e falta de tempo da professora em dedicar-se individualmente ao ensino de seus filhos. Procurei administrar tal situação de todas as formas que sabia, durante todos o primeiro semestre, porém no segundo semestre como não percebia evolução nem comprometimento da família, condicionei a permanência dos meninos na turma à investigação clínica, psicológica e neurológica do duplo caso. Resultado: os alunos foram transferidos de escola alegando “falta de recursos”, em outras palavras, inabilidade dos professores.

Um ano mais tarde encontrei com aquele pai, que me confessou que, na outra escola o problema continuou o mesmo e, até se intensificou ainda mais, que eles foram obrigados, por ser uma escola particular, a buscar investigação médica com tratamento medicamentoso e com bom resultado, pois os meninos haviam conseguido ser aprovados para a terceira série. Me confidenciou também que naquele bimestre os gêmeos não estavam fazendo uso da medicação e os problemas voltaram. Ele concluiu dizendo que, realmente, as crianças necessitavam de acompanhamento médico. O que eles inicialmente negligenciavam projetando culpa nos professores. Nas entrelinhas observei que ele se desculpava por não ter dado razão ou significado aquilo que todas as professoras constatavam e buscavam administrar, sem sucesso.

Consigo entender que os pais não aceitam ou admitem que seus filhos apresentem alguma dificuldade fora da dita “ normalidade”: isto é doloroso. Mas falta de comprometimento ou negligência com a saúde dos próprios filhos, já é caso de abandono do poder pátrio, digno de Conselho Tutelar ou Promotoria da Infância.

Outra aprendizagem como educadora: a inclusão não se compreende apenas do ponto de vista da falta de recursos materiais ou falta de esclarecimento, pois aquela família tinha um bom nível sócio-econômico-cultural e negligenciava tratamento adequado a seus filhos. É preciso investir na família e nas posturas apresentadas frente as necessidades especiais dos filhos.

Caso 4-

No ano de 2005 recebi um aluno que dizia ter 12 anos e frequentaria a minha turma de segunda série com outros colegas de 07 anos, em média. Este menino já apresentava características adolescentes como musculatura desenvolvida, tamanho e pelos, porém portava-se com a doçura de uma criança de oito anos. Vivia pela rua o dia inteiro e, nas turmas anteriores não tinha frequência, fato que o reprovava, consequentemente. Era preciso conquistá-lo, inicialmente, trabalhando a turma para também aceitá-lo sem restrições ou discriminações por sua idade e tamanho diferenciados.

Ele pouco se comunicava comigo e com os outros. Só falava com um outro menino de 07 anos, que era seu tio. Mas notei que havia doçura em seu olhar, meiguice e carência afetiva, com muita vontade de pertencer a um grupo.

Através de jogos e brincadeiras descobri que ele não quantificava ou construía numerais, não identificava letras, nem seu valor sonoro. Para um meninão com vasta experiência de rua era bem incomum. Percebi também que ele não me entendia quando eu falava ao grupo, a turma, mas quando me dirigia a ele e ele me olhava firmemente compreendia o que eu falava. Desconfiei de sua audição e investiguei com a família, observando também que ele não falava com clareza. A mãe relatou-me, então, que ele só falou a partir dos 5 anos de idade, que, realmente não escutava direito e sempre teve muita dificuldade de aprendizagem, o que ocasionava fugas da escola e infrequência. Declarou também que o garoto fazia uso de medicamentos anti-convulsivos pesados, para evitar agressividade, por isso, às vezes, vinha sonolento ou dormia na sala de aula. Constatei que a medicação ministrada poderia oferecer prejuízo na aprendizagem. Notei que a mãe também apresentava dificuldades na fala e algum distúrbio psicológico.

Solicitei encaminhamento ao SOE para investigação daqueles sintomas. Os resultados dos exames evidenciaram apenas 50% de audição, o que comprovava minhas constatações, inclusive sobre a dificuldade na articulação de palavras: ele embrulhava a fala porque não ouvia direito, assim como, a medicação o dopava. Ele não aprendera o valor sonoro da letras ou seus referenciais, por sua dificuldade auditiva e pela medicação pesada que fazia uso.

Através do trabalho de aceitação da turma, da re-orientação da família quanto ao uso dos medicamentos o aluno ficou mais ativo e participante. Investi em jogos e brincadeiras onde ele se divertia em ser meu secretário e ser responsável pelo pequenos: sua auto-estima melhorou e não faltava mais as aulas, era querido e respeitoso com todos apesar de seu tamanho. Descobri, então que a família havia omitido sua idade, que já era de 14 anos, prestes a fazer 15, com medo de não ser incluído regularmente no ensino diurno. Não dei importância a isto e continuei investindo; meu garotão começou a tomar iniciativas e a participar ativamente das atividades. Lembro que ficou muito feliz quando foi, junto com a turma assistir “A mulher Gigante”, peça teatral, onde havia um potente sistema de som e ele ria e dançava satisfeito ao ouvir as músicas.

Ao final do ano ele quantificava, contava em sequência além de 50, realizava operações de adição e subtração, construiu o ó código alfabético e avançou ao nível silábico, porém naquele ano não conseguiu realizar a leitura e compreensão de palavras, mas avançou muito a partir do seu estágio inicial. Sei que continuou seu progressos na turma posterior, mas infelizmente, no ano de 2008, quando já começava a trabalhar em seu primeiro emprego e, tendo saído para dançar, voltava para sua casa quando foi confundido, em uma perseguição policial, com assaltantes e foi alvejado. Era a primeira vez que ele saía para divertir-se com sua tia. Infelizmente os inocentes pagam junto pelos crimes de outros.

 Caso 5-

No ano retrasado, portanto, 2007, recebi outro aluno que havia frequentado todas as turmas de sua série e, a minha seria a última tentativa da escola. Tal aluno não se mantinha na sala de aula, mas rodando entre as salas, provocando as outras turmas, criando conflitos de toda a sorte. No ano anterior a família já havia sido conclamada a investigar a situação em seus desdobramentos clínico, psicológico e neurológico e já havia resultados e laudo médico que constatavam a situação clínica do aluno que, ao não tomar a medicação indicada, entrava em surto e fugia da escola, pendurava-se em lugares altos e perigosos, subia nas sacadas dos corredores da escola, batia nos colegas, era violento e só arrumava confusões no recreio, não se mantendo na sala, muito menos atingindo objetivos educacionais de aprendizagem. Em entrevista com a mãe que, também apresentava algum distúrbio de conduta, ela justificou não estar empregada, nem o marido e, que não tinha condições de comprar e ministrar a medicação indicada. Por esse motivo a criança surtava, buscava conflitos e agredia a quem estivesse por perto. Na presença da orientação escolar e respaldo da direção escolar, combinamos que compraríamos a medicação e a mãe se comprometeria em administrá-la conforme prescrição médica. Feito isso, regularmente, o aluno conseguiu permanecer dentro da sala a conviver com sua turma. Mas não bastava estar dentro da sala para incluí-lo era necessário trabalhar a aceitação da turma àquele que causava tantos conflitos, isto é, destruir o rótulo de incapaz de conviver e respeitar os outros. Com persistência e determinação, valorizando a cada pequena atitude positiva manifestada fomos quebrando aquela máscara que o próprio aluno já acreditava ter incorporado e, que foi sendo quebrada com novas perspectivas, agora de aprendizagem e boa conduta. Houveram algumas recaídas em função da falta da medicação ou pela dosagem ser inoperante, mas o aluno alfabetizou-se e conseguiu progredir a série anterior.

Conclusão: a família também pode ser a portadora de necessidades especiais e não se dar conta disso, achando que a manifestação da criança e “normal”, porque todos agem da mesma forma na família. A família também precisa ser tratada e buscar recursos de inclusão para si e para os filhos.

 

Estes são algumas das minhas vivências profissionais de inclusão que demonstram que as iniciativas a este respeito independem de lei que as regulamente e faça-as valer, pois acima de tudo há um ser humano que precisa ser compreendido, aceito amado e resgatado em sua dignidade e humanidade.


 

 

 

 

 

Comments (1)

fernanda.pead@... said

at 3:29 pm on Apr 21, 2009

Olá Marta!
Quantas experiências já tiveste com alunos de Educação Especial! Tratas de diferentes necessidades especiais nos diversos casos relatados. No segundo, terceiro e quinto, aparecem as dificuldades das famílias em aceitar as limitações dos filhos. Torna-se menos doloroso, como escreveste, projetar a dificuldade para os professores do que ter de aceitar e assumir que o filho está apresentando dificuldades e necessita de ajuda. Existe toda uma repercussão emocional e psicológica que também precisa ser compreendida, especialmente pelos pais. No seu quarto relato, evidencia-se a tua disponibilidade e aceitação do aluno, e a construção de um vínculo muito significativo que trouxe repercussões em suas aprendizagens. Não compreendi bem se o menino, do caso 1, estava no terceiro ano. Quando ele foi teu aluno? Sensibilizei-me com a conclusão dos relatos ao enfatizares o valor humano como dimensão primeira da inclusão. Agora é só dar seguimento ao dossiê com a atividade da unidade dois. Sugiro que no seu wiki pessoal, cries um link no sidebar para o dossiê. Bom feriado!
Abraços, Fernanda.

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